O Aguardado: Máscaras trans-históricas

Rei Sebastião voltou. Voltou de onde nunca esteve. De onde nunca puderam encontrá-lo e corporificou-se no presente da memória do povo. Sebastião voltou. E agora. Encontra mascarados que se espalham enigmáticos e não se deixam prender pelas tentativas de achatamento de canais de televisão.

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Nas páginas de Augusto Botelho as próprias máscaras encontram muitas máscaras na convergência entre as lendas de um Brasil mitológico e as mitologias existentes nas manifestações populares atravessadas por junho de 2013. Os mascarados que povoam essas páginas, remetem a quase-realidade-lendas-linguagem bem precisas sem, no entanto, nelas se fechar, o que nos diz de uma atualidade do texto, tomando-a enquanto passado e futuro condensados no presente como forças de transformação.

aguardadoweb7O milenarismo está indissociavelmente associado à conquista dos sertões. Durante todo o século 20, a ciência social brasileira buscou os elementos do que seria a crise da formação nacional. Por que um país tão rico estaria condenado ao subdesenvolvimento? As respostas foram muitas e diversas, mas convergem na identificação de um inimigo externo: a metrópole portuguesa, o tráfico de escravos, a Inglaterra, o imperialismo. Fatores exógenos teriam abortado a formação da nacionalidade, imprescindível estágio para um estado independente.

Todas essas avaliações têm seu momento de verdade, mas vacilam no achatamento dos diagnósticos. Se à violenta colonização correspondeu um modelo subjugado de organização política, as revoltas e êxodos dos escravos constituíram outro Brasil, ou brasis — no plural e em minúsculas. Esse outro Brasil é um país que se constituiu no fora. Engendrado nos fluxos diaspóricos do Atlântico Negro e na fuga incessante de migrantes — quilombolas, aguardadoweb6indígenas, imigrantes europeus, nordestinos — esse outro Brasil é um projeto de país feito no deserto.

Contra qualquer formação nacional baseada no estado, na economia ou no crescimento econômico, um país de pobreza constituinte e abertura drástica, tantas vezes configurado pelos artistas mais agudos da des-formação nacional: Oswald e a antropofagia, Glauber e a estética da fome, Gil e a metabolização tropical.

É nessa anti-tradição da brasilidade que os quadrinhos de Augusto Botelho se inscrevem. Alegórico na condensação de signos trans-históricos. Além de qualquer dialética entre o arcaico e o moderno, o milenarismo comparece como resistência à conquista dos sertões. O sertão brasileiro é o nosso deserto, para onde caminharam Antonio Conselheiro e seus beatos guerreiros, depois de quebrar as tábuas das leis e imprecar à República. A conquista dos sertões sempre foi o lugar por excelência da pacificação: espaço de interiorização de um Brasil que se recusa a ser capturado. Não admira a figura do bandeirante, apresador de índios e caçador de quilombolas, ser o emblema maior da formação nacional: dos fluxos e êxodos à fixação do interior num Brasil profundo e identitário, cercado de propriedade e dominado à mão armada.

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Hoje, as entranhas mestiçadas da sociedade urbana atraíram todos os êxodos e migrações, colocando o maior desafio à pacificação. Nos quadrinhos de combate de Botelho, a máscara transfigura a não-identidade dos povos nômades, e a resistência urbana de ocupação repete o gesto rebelde de Canudos. O milenarismo não é mais transcendente. O messianismo secularizado se transforma em teoria da revolução.

São Sebastião só pode ser a decisão de lutar e organizar a luta, para reabrir os desertos que nos povoam a imaginação.

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Texto originalmente publicado como abertura do quadrinho o “Aguardado’, de Augusto Botelho, por Talita Tibola e Bruno Cava.

Talita Tibola e Bruno Cava participam da Rede Universidade Nômade. Talita é autora do blogue A morte é uma borboleta que nasceu em ressonância com sua dissertação de mestrado (UFRGS) dedicada à palavra amar-elo e a pensar uma educação intensiva. Bruno é um vermelho, mas sua cor favorita é preta e edita o Quadrado dos loucos.

O Aguardado está disponível online e também pode ser adquirido na nossa loja.

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