Oi. Pode entrar, tá claro ainda.

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Ver as pinturas da série “Oi. Pode entrar, tá claro ainda” é como entrar na casa de um parente distante. Há algo de familiar ali, mas você nunca sabe o que poderá encontrar ao virar um corredor ou abrir uma porta.

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Pintora por natureza, Maíra sempre procurou encontrar esse sentimento estranho dentro do familiar. Seus trabalhos anteriores traziam retratos de figuras sempre um pouco parecidas com a autora, mas muito diferentes, fazendo caretas ou pequenos gestos. Nas aquarelas as figuras estavam soltas no espaço da folha branca e elas sempre olhavam para o espectador de uma forma peculiar e perturbadora. Nada mais natural do que passar dos retratos dessas figuras que eram e não eram a autora para a investigação do espaço em que se habita: a casa, que é e não é a sua casa. As telas trazem pequenos recortes de ambientes internos, mas que parecem se prolongar sem ter fim para fora dos limites do quadro. E mesmo nas cenas mais banais, como o corredor com a escada, parece que alguma coisa mora escondida ali, na curva do corredor, na dobra da paisagem que não conseguimos ver.

de_dia_nao_tem_problema(triptico)@karinasantiago2Essa casa é também aquela da infância: repleta de criaturas e assombrações prestes a nos pegar, um grande espaço onde projetamos e vivemos nossos mundos imaginários, seus sonhos e medos. Penso que toda a tradição de casas em histórias de terror tem a ver com o medo que sentimos quando o perigo ou o estranho nos encontra justamente no lugar em que mais nos sentimos seguros, no lugar mais familiar: a nossa casa. E se a casa aqui é uma metáfora para a própria morada do ser, podemos imaginar que a casa do Eu é a nossa mente, e quão pavorosos também não são os demônios, perigos e assombrações que ali se escondem? O terror psicológico é também uma forma de viver a invasão do medo em nosso espaço familiar e seguro: nossa própria cabeça!

Mas as vezes se deixamos o medo de lado e nos permitimos explorar aqueles cômodos e experimentar suas surpresas podemos acabar descobrindo que não eram tão terriveis assim, apesar de estranhos. O olhar que nos espreita da janela quer apenas nos avisar, ou de repente nos mostrar, algo. A criatura estranha que vemos de costas se revela tão assustada como nós, ao ser fitada de frente, e podemos descobrir que também somos estranhos. A escada no canto escuro, com seus padrões de luzes e sombras e seu ranger e estalar sob os pés, irá apenas nos conduzir a novas descobertas. Nos permitir viver e explorar esses caminhos de medos e sonhos sempre à espreita nos refamiliariza com essa paisagem interna e podemos então viver ali, não eliminando o estranho, mas aprendendo a conviver com ele.

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Pinturas da série de Maíra Geraldo

A publicação dessa série de pinturas em formato impresso veio como um conjunto de cartões postais organizados em um livro único. O projeto gráfico ficou por conta de Augusto Botelho. “Oi. Pode entrar, tá claro ainda” pode ser adquirido na nossa loja

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Fotos da publicação “Oi. Pode entrar, tá claro ainda”, de Maíra Geraldo

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